Quinta-feira, 2 de Janeiro de 2020

Poema Infinito (489): O pasmo de Ulisses

 

 

Passeio pela rua e espanto-me com a finitude dos rostos. Tento procurar o infinito por detrás deles. Por vezes consigo. Penso que consigo. As nebulosas cavam regos fundos no universo. A noite é solitária. Dizem que a razão autónoma é má. Radicalmente má. Essa é a razão de Deus. O sistema teológico está à beira da deflagração definitiva. O jogo das convenções é sempre vazio. Ao contrário do bem, o mal é indivisível. Ninguém consegue passar a vau pela vida. Daqui já não enxergamos nem as estrelas, nem os remos, nem as sombras dos movimentos. Os recados da avó são eternos. Nas minhas mãos continuam a nascer plantas frágeis. É com elas que escrevo o enigma das manhãs. Chegou agora mesmo Ulisses, pasmado, rodeado de rudimentos. Trouxe-o um vento exíguo. Diz que se fartou de falar com o mar. Diz também que o seu anjo da guarda o levou até ao cimo da estátua do Colosso de Rodes, para daí ver o mundo. Deu-lhe caminho. Depois andaram sobre a areia como se fossem beduínos, ou guerreiros. Talvez profetas. Comeram tâmaras e pistaches. Falaram idiomas estrangeiros. Comportaram-se como calmos poetas sábios. Depois o anjo abriu as suas asas enormes e foi-se embora para sempre. Ulisses diz que tem medo da tristeza e da mágoa e também dos seus sonhos de beleza. Diz que dividiu a noite para ver as montanhas respirarem à luz das estrelas. As levitações podem tornar-se incómodas. Quando uma pessoa se vê forçada a amar, o amor deixa de ter sabor. Há sempre qualquer coisa de ridículo nas alegrias intelectuais. A paisagem tornou-se mais fria, mais distante, mais ausente. Nesta tarde acinzentada pelo nevoeiro, o silêncio comove-me. O orgulho leva-nos a olhar para o vazio. Arlequim e Pierrot perderam definitivamente a sua graça. Transformaram-se em pequenas variantes da desgraça. A injustiça continua a desenvolver-se no corpo das pessoas. As almas alegres dançam em cima das labaredas. Oiço correr a água no chafariz do pelourinho e o crepitar das folhas velhas ao sol. Invejo o teu dom da impassibilidade. As pessoas vagas entregam-se à mistificação deitadas no divã da indolência e da glória que nunca alcançarão. Faz parte da principal lei da identidade a verdadeira beleza entrar em rutura com o mundo. As coisas mudam muito devagar. Se é que mudam. A tentação é uma metáfora diabólica. A buganvília lilás da avó cresceu de forma selvagem pelo muro fora até ao terraço. Se fosse viva, tal não aconteceria. Pior do que a passagem do tempo, é o seu silêncio. A beleza das flores do jardim estagnou antes da sua época. A guerra é sempre feita pelas nossas mãos. Todas as cabeças dos ditadores ficam embrulhadas em séculos de sombra. Deus é um delírio da nossa imaginação. Os rios desistem do seu ritmo. Os mares rejeitam a espuma dos dias. Já não conseguem absorver mais plástico. As almas desprendidas são as que alcançam as estrelas. Ardem as flores dentro do nosso tempo vagaroso. Consumimos horas como se fossem cigarros. Sinto-me levitar. Cantar já não adianta nada. Mesmo os homens gloriosos são esquecidos pelo tempo. Tanta ausência causa aflição. A solidão acaba por me servir de explicação. Um dia, o futuro passará a ser passado. Virá um novo tempo de esperanças incertas. As sombras são agora mais serenas.


publicado por João Madureira às 07:00
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