Quinta-feira, 13 de Fevereiro de 2020

Poema Infinito (495): Estremecimento

 

 

Lembro-me de a minha irmã brincar com os bodrelhos mexendo nos pequenos seixos como se fossem rebuçados e depois começar a rir enquanto a senhora Marquinhas da Ajuda fazia chorar os pecadores por causa do sofrimento que traziam dentro de si enquanto diziam que não suportavam a vida e ela falava então com o seu marido assassinado à queima roupa ao virar uma esquina da vila onde tinha ido tratar de negócios pois os vivos são capazes de fazer coisas más uns aos outros e o pai parecia um pássaro abrigado debaixo das folhas mais finas das árvores estremecendo com os raios de sol que se escapavam quando as folhas se assustavam com os estalos dos ramos secos e as árvores eram gigantescas e as nuvens também eram vastas como a indiferença e o sofrimento e então a avó punha-se a falar sozinha dizendo que o falecido avô sempre lhe parecera um homem simpático e bom amigo do seu amigo e que não morreu na guerra por um triz ajudado pelas rezas da comadre Marquinhas mas que agora tudo lhe parecia mais estranho como por exemplo as vozes das pessoas que falavam através das paredes do quarto e que a sua velha mãe lhe aparecia em cima dos arbustos vestida como uma nossa senhora mãe dos pobres e depois a minha irmã mais velha punha-se a dançar descalça no relvado juncado de florzinhas amarelas e vermelhas e azuis fazendo lembrar lamparinas flutuantes e ria e ria e ria e contava histórias inventadas por si enquanto o louco da aldeia que era o mais lúcido de todos se punha a olhar para o rio como se aquela água calma e pura o fascinasse mais do que tudo em seu redor regressando depois a casa apitando como o comboio que ligava Chaves à Régua e posteriormente tudo parecia ficar perfeitamente calmo ou perfeitamente razoável enquanto o amigo do meu pai que se chamava Mário já falava na necessidade do suicídio porque as pessoas eram más e também que as mentiras inventadas pelas pessoas faziam com que o mundo perdesse o seu sentido e pedia que lhe dessem a mão para o impedir de cair cair cair nas chamas e que via na parede rostos que se riam dele chamando-lhe nomes maus apontando-lhe os dedos da maldição e respondia a vozes discutindo com elas e ria e chorava num crescendo de exaltação dizendo que tinha de regressar e depois o pai chegava junto dele e punham-se os dois a olhar para o céu estremecendo e franzindo a testa esperando que o sentido da verdade os alcançasse e a mãe leva-lhes duas cadeiras para se sentarem e repousarem antes de voltarem ao esforço de elucidarem a humanidade sentindo debaixo deles a terra a tremer e flores vermelhas a começarem a crescer dentro da carne enquanto se ouvia vindo do alto do monte um som estridente que se assemelhava muito à voz de Deus quando pegou fogo às sarças e se pôs a falar com Moisés como se ele fosse um velho pedinte que cantava canções de embalar a cobras e todos se lembraram dos pássaros a chilrear e das rodas dos carros a chiarem e dos gritos da mulher louca que habitava a casa mais afastada do centro da aldeia e apesar de tudo isto a beleza jorrava de todos os lados de forma instantânea e a beleza coincidia com a verdade e então a avó pôs-se a cantar uma espécie de ode ao tempo com palavras brancas e imortais enquanto o Mário continuava invocando o seu destino com a cabeça entre as mãos e o rosto sulcado pelo desespero ao mesmo tempo que a luz se estendia pelo chão fora como se fosse água.


publicado por João Madureira às 07:00
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