Quinta-feira, 19 de Março de 2020

Poema Infinito (500): O Divino

 

 

Leonardo, quando partiu para Milão, levou consigo aquilo que lhe era mais querido: esboços de flores copiadas da natureza; vários São Jerónimo, oito São Sebastião; uma cabeça de Cristo feita à pena; muitas composições de anjos; uma cabeça de perfil com lindo cabelo; muitos pescoços de mulheres velhas e cabeças de homens novos; vários nus integrais; uma Madona já  terminada; uma outra de perfil, quase terminada; uma cabeça de um velho com um queixo enorme; uma narrativa da Paixão de Cristo feita em relevo; um projeto de fornos e várias engenhocas para a água. Em Milão instalou-se no castelo do cruel Ludovico Sforza, conhecido como “o Mouro”, homem com falsas aparências de cortesia, cultura e civilização. E por lá andou Leonardo misturando-se com os cortesãos, artistas, atores, músicos, mestres de caça, estadistas, treinadores de animais, engenheiros, além de outros agentes de auxílio ou de embelezamento que ali estavam para aumentarem o prestígio e a legitimidade do seu governador. Aspirava, o genial da Vinci, em ser polímato, naquela cidade repleta de académicos e intelectuais de várias áreas. Começou a dançar em torno da linha de separação entre o engenho e a fantasia. Desenhou então o carro falcato que no seu movimento cortava pernas ou soldados ao meio. Ele que se tornou vegetariano pelo amor que nutria por todas as criaturas. Era este um sinal do seu tumulto interno, pois dentro da sua cabeça existia uma imaginação demoníaca. Aprendeu a usar formas geométricas como analogias das forças da natureza. Prometeu desenhar, se fosse necessário, canhões e peças de artilharia úteis e de enorme beleza. Desenhou o architronito, ideia creditada a Arquimedes, o antecessor da metralhadora. Ludovico Sforza não lhe ligou importância. A sua atividade militar apenas se desenvolveria a partir de 1502, quando foi trabalhar para um homem mais forte, difícil e tirânico do que o seu mentor: César Borgia. O único método que Ludovico aprovou com entusiasmo foi a preparação do banho para a sua nova e jovem mulher que consistia em quatro partes de água fria para três partes de água quente. Os génios são assim. Também as cidades ideais integram as visões imaginativas com as perspetivas militares. A ideia urbana de Leonardo baseava-se no conceito de combinar as ruas e os canais num sistema de circulação unitário. A sua cidade teria dois níveis: um superior pensado para a beleza e a vida pedestre, e um nível subterrâneo para albergar canais, comércio, instalações unitárias e esgotos. Decretou, o genial Leonardo, que somente o belo podia ser visto no nível superior da cidade. E as escadas deviam ser espiraladas, pois, segundo Deus, o seu filho Leonardo amava essa forma. Se alguém lhe tivesse dado ouvidos, a história poderia ter sofrido o impacto e a aceleração da totalidade da sua arte. Estudou cientificamente, enchendo páginas e páginas de esboços, ideias gerais e passagens para tratados de temas como o voo das aves, a água, a anatomia, cavalos, mecânica, geologia e a possível arte confessional de Santo Agostinho. Contudo, os seus zibaldone são descritos como os testemunhos mais poderosos da observação e imaginação humanas alguma vez apresentadas em papel. Um mistério ainda existe: raras vezes datou as páginas dos seus cadernos.


publicado por João Madureira às 07:00
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