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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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09
Abr20

Poema Infinito (503): A intransmissibilidade do tempo

João Madureira

 

 

O dia ascende, minucioso. Há agora uma nova estratégia da crueldade. A luz cai em lâminas sobre os lençóis. Tudo o que vemos nas fotografias já passou. Sobre as flores do jardim desliza a alegria e o canto das cigarras e as princesas que querem perder a virgindade andando de bicicleta ou montando a cavalo. Alguém cortou os sonhos ao meio. Cesário Verde amadureceu antes de tempo. Ninguém vive apenas para si próprio. Tudo cabe dentro das casas. Sobretudo os nomes antigos. E as toalhas. E os lençóis. E os coitos. Coitados dos coitos. Os coitos agora rangem. Coitados dos corpos. E dos sexos. E dos orgasmos. Agora cavalgamos devagar, enrolando na cabeça os líquenes e a iluminação do Natal. A nossa sensibilidade corporal aumentou. Agora até a chuva nos fere a pele. São demasiado rústicos, os nossos deuses. Abrem os braços como se estivessem longe, medindo os caminhos de regresso, as flutuações dos montes, o crepúsculo, a curva dos voos dos pássaros, a transformação sonora do cantar dos galos. Tudo agora tem a forma de uma despedida e o cheiro das ausências. E o riso doido das lágrimas. A verdade agora é muda. A verdade não importa. A verdade inventa-se.  As horas diluem-se no tempo. Nesse templo que tudo engole. A paciência é uma coisa inútil. Pode até levar-se ao colo. Ou dentro do bolso, para qualquer lado. As nações nasceram falsas. Já não conseguimos substituir as cores às memórias. A vida transborda de eletricidade. Einstein ensinou-nos que o tempo difere de local para local. Cada um tem o seu tempo próprio, que é intransmissível. Todo o ouro veio das estrelas supernovas. Tudo nos está a fugir das mãos. Tanto as coisas demasiado grandes como as demasiado pequenas, apesar de estarem ao nosso lado, não as vemos. A imagem da mãe atravessou a sala e pôs as flores na jarra que está colocada precisamente no sítio onde o sol incide diretamente. O som do sino da igreja deslocou-se para norte, para se misturar etereamente com as nuvens e com o fumo que sai da chaminé das casas. Os círculos cor de chumbo dissolvem-se no ar. E as horas também. Há um tempo que passa. Existe um outro que passa muito depressa. E há ainda outro que nunca acabará de passar. Encostamo-nos ao frio. Ouvimos o orvalho. O bosque está cheio de odores, de pequenos estalidos. De pirilampos que parecem estrelas. Há sonhos onde não existe nada, onde não se perscrutem olhares, por mínimos que sejam. Nem gestos. Lembro-me da imensidade irremediável do dia de ontem. Dos corredores. Dos gritos. Das escadas. Dos sons altos. Das más horas que quase não se ouviam. Quase não se sentiam. Quase não existiam. E da permanência dos aviões no céu. E da noite na aldeia que, à medida que foi acontecendo, se foi assemelhando a um pergaminho. Senti depois no meu olhar desolado o teu olhar ferido que tentava argumentar aquela ausência definitiva. O conceito de mãe é inviolável. Os corpos agora argumentam cansaço. Dizem que possuem uma espécie de segunda beleza, que, bem vistas as coisas, não é beleza nenhuma. Somos animais de pequenas ações. A rapidez do mundo é líquida. E nós somos os seus navegantes imóveis. Só o teu corpo é navegável. Os deuses são relapsos. Argumentam de lado, como se quisessem fugir. Tudo o que era leve ficou pesado. O nevoeiro, as auroras, os ossos. O silêncio.

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