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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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28
Mai20

Poema Infinito (510): A ordem humana

João Madureira

 

 

 

Vimos dos rios, dos campos, dos barrancos e das árvores. Depois da força da matéria caótica, apareceu a ordem humana. O amor não existe na natureza. Só entre nós. Nós transportamos o desespero para os eletrodomésticos. O instinto permite-nos ver a origem das coisas. Antigamente, as aldeias cheiravam mal. Agora cheiram a ninguém. O amor também pode destruir. Tudo o que é belo tende a desaparecer. Por vezes descem sobre nós coisas que solenizam o que estamos a viver. O olhar move-se como a luz feérica das coroas espirituais. Agora tudo nos vence: as bagatelas, o passo apressado das miríades, os homens angulosos, a exaustão dos grandes restos, as mulheres enfatuadas. Alguém sussurra frases de Shakespeare por entre as conchas das mãos tentando revelar-nos o seu sentido. Shakespeare explica-se a ele próprio. Oiço os murmúrios dos campos de trigo ecoando nos meus ouvidos. E vejo as flores caindo sobre as campas. A maior tentação das plantas é florir. Nas árvores rompem as primeiras insinuações dos frutos. A seiva impele para o alto através dos ramos torcidos. O silêncio é imperioso e obriga a suster a respiração. O vácuo quebrou-se de repente. Ouvem-se todos os sons ao redor: os grilos, as rãs, os insetos e o suspiro profundo das árvores. Depois tudo se desvanece. O som do sino tange o ar húmido da noite. E as distâncias ora são côncavas, ora são convexas. A solidão sente-se através de espasmos. Nos bancos de pedra sentam-se os sonâmbulos. Já não sobem as escadas por orgulho e não as descem por tonturas. Ninguém lhes garantiu que iam morrer. Alguns beberricam pequenos golos de aguardente. Outrora aqui moraram pessoas. As mulheres cantavam com voz doce enquanto amassavam o pão. E rezavam. Cantar era outra forma de rezar. E havia paixão e ceifas e fascínios e invernos violentos e primaveras férteis. Agora apenas o vento continua a varrer as encostas, inclinando as giestas e as urzes. O vento parece estrangeiro. Alguns dos que partiram, regressam agora vencidos e calmos para morrer. O seu amor foram as cidades onde as madrugadas se transformavam rapidamente em formigueiros sonâmbulos a caminho dos empregos. Durante o dia trabalhavam e à noite caíam na cama, exaustos. Pareciam lixo abandonado nas cidades excessivas. Conseguiram, quase todos, transformar a tragédia da sua vida em comédia diária. Viviam mergulhados num tempo imperfeito. Enchiam templos e estádios. Costumavam hibernar durante os fins de semana. Quiseram abraçar vidas mas o destino dividiu-os ao meio. E começaram a imitar o cântico dos rouxinóis engaiolados. Também as aldeias podem ficar cegas, surdas e mudas. Os mais velhos parecem peixes agarrados ao anzol da vida. Somos nós os que dormimos em cima de evidências, os que gememos de espanto, os que nos afastámos da perplexidade do amor e do ódio. A claridade pode ser insuportável para quem sai de repente da escuridão. A genética é uma espécie de formigueiro permanente. Custa-nos reconhecer as coisas à nossa volta, apesar de serem as mesmas. Os seus contornos são diferentes. Parece ter havido nelas uma mudança de sentido. As sombras são mais verticais. Junto à janela, a mãe ficou transparente. Dizem que a natureza tem horror ao vazio, mas o nosso desaparecimento é eterno.

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