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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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04
Jun20

Poema Infinito (511): O pai

João Madureira

 

 

Lembro-me todos os dias do pai. Do seu enigma. Na verdade, eu nunca soube quem verdadeiramente era o meu pai. Era tímido, silencioso e elegante. Nunca conheci ninguém sequer parecido. Talvez fosse uma espécie de anjo do esquecimento. Ele gostava de ir para dentro de si. Tenho vontade de o voltar a ver. Muita vontade. Mas sei que não é possível. Até os anjos morrem. Julgo que herdei do meu pai uma espécie de ironia oculta. Nunca me ensinou a gostar dele. É por isso que gosto tanto dele. Da sua memória. Da sua elegância quando me agarrava na mão e saíamos para a rua. Ele não se importava de ser pobre. Os ricos são sempre os outros. Mas o seu espaço moral era grande. Não sei se sonhava. A ser assim, fazia-o de maneira imprecisa. Ele construiu a sua própria solidão. A morte deu-lhe uma espécie de liberdade: libertou-o da ação, do trabalho, do esforço, das tentativas de êxito e do fracasso. Por vezes cozinhava. Era um bom cozinheiro. A necessidade aguça o engenho. Tinha muito jeito para preparar os ingredientes. O seu olhar tinha uma luz muito concentrada. Por vezes, recolhia-se dentro da sua própria sombra. E, por vezes, também acontecia o contrário. A sua angústia era laboriosa. A simplicidade tem destas coisas. O seu corpo era uma espécie de desculpa. Não a sua alma. A sua inexistência atual é uma forma de condenação minha. Ele nunca esteve dividido entre o bem e o mal. Por vezes parecia que se sentia excluído de mim. Esse tipo de ternura invisível é dolorosa. Acho que não tinha medo de desaparecer. Mas eu tenho. Os mortos que se transformam, perduram. Agora até me lembro da sua lembrança. O presente transforma o passado num enigma. O pai faz parte da distância. O seu labirinto emocional acabava sempre na tristeza. As horas estão cada vez mais vazias. Vivemos sempre dentro de pequeninas catástrofes. Por vezes tudo me parece vazio: os homens, as mulheres, as crianças, os pássaros, as árvores, as ruas, os rios e o mar. Muitas vezes o meu pai chegava de madrugada, quando eu já dormia. Fazia parte do seu horário. Quando ainda era novo, o seu maior amigo deu um tiro na cabeça com a espingarda de serviço. O meu pai ficou ainda um homem mais triste. A verdade é que nunca abdicou dela.  Nem a cultivou. Aconteceu-lhe. Já pouca gente se lembra dele. Todos caminhamos para o esquecimento. O pai foi à guerra, mas nunca mais se interessou por esse momento histórico. Deixou apenas que acontecesse, nada mais podia fazer. Em troca, o país ignorou-o. Por vezes ficamos assustados com a nossa própria essência. Eu sou parte da essência do meu pai. Herdei dele uma espécie de timidez desalentadora que me sai quase sempre em forma de ironia corrosiva. A solidão é imponente. E, por vezes, impotente. É difícil ter acesso à felicidade. O pai transformou-se numa pequena luz. E agora esvoaça com pequenas partículas de pó doirado nas asas. Ninguém é igual ao outro. Não conseguia rir. E, para mim, isso foi sempre uma espécie de catástrofe. Por vezes sinto-me a afogar em angústia. Lembro-me de o meu pai cortar o pão onde a minha avó punha sempre uma cruz, antes de o cozer. Dentro de casa devia haver muitos espíritos, pois era fria. Só a cozinha era quente, porque a lareira estava sempre acesa. Muitas vezes ia para junto dele, no cimo das escadas, vê-lo fumar e olhar para a distância do tempo, do céu e da terra.

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