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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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22
Out20

Poema Infinito (531): A aprendizagem da loucura

João Madureira

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Quem vive no norte consegue sentir a incorreção do sol. No ano de 1916, chegaram a juntar-se em Verdun: bois, vacas, cães, pombos, canários, burros, mulas e duzentos mil cavalos. Os ratos e as moscas eram enormes, não lhes faltava que comer. Fixo o olhar nos pirilampos, esses pequenos visitantes que parecem vir de outra dimensão. O sofrimento torna-nos mais picturais porque começamos a suportar uma perda de luz no rosto. Há gente profissionalizada na penitência do seu pesar. D. Quixote, falando da sua namorada imaginária Dulcineia, disse a Sancho Pança que a pintava na sua fantasia, segundo os seus desejos. Penso no homem que, pensando ser um Deus desocupado, passeou sob os choupos dourados pelo sol ao longo das margens do grandioso rio Pó, depois de escrever O Anticristo. Foi na altura em que as vinhas que rodeavam Turim tinham adquirido o castanho que, dizem os especialistas, fazem explodir a doçura na boca. A Nietzsche aconteceu-lhe o mesmo com as palavras dentro da sua. Tinha amadurecido em plenitude. Por fim, estava tudo em ordem. O tempo era abundante. O génio fazia quarenta e quatro anos e queria contar toda a história. O mundo estava autorizado a testemunhar a sua transformação. Nietzsche, fazendo de Pilatos, apresentou Ecce Homo flagelado e a sangrar, amarrado e coroado com espinhos, para ser julgado pelo povo, que então condenou o Deus vivo à morte por crucificação. Ao longo do livro, o filósofo, à beira da loucura, apresentou-se em competição com Cristo. Talvez como um segundo Cristo, outro Deus vivo condenado à morte. No caso do filósofo, por obscurantismo, desatenção e falta de interesse pelo seu pensamento. O mestre não era um homem, era dinamite. Era o seu próprio destino. Era uma fatalidade. Dionísio combatia o Crucificado. Quando terminou o livro, o inverno ia a caminho de Turim e as montanhas já tinham enfiadas as perucas brancas que se destacavam no céu desbotado. O seu olhar avançava pela luz e pela sombra estroboscópica das longas arcadas de pedra da capital do Piemonte. Tal como João Batista, o filósofo alemão, estava a abrir o caminho. O livro era anunciativo. “Sou o teu labirinto”, diz Nietzsche por Dionísio, o Deus relâmpago, e pela sua amante Ariadne. Nessa altura, o louco filósofo alemão encontrou um dramaturgo que seguia o mesmo caminho: Strindberg, que vivia no meio de uma catástrofe provocada pela sua primeira mulher, que ele adorava, ambos enfiados na ala de um castelo decapitado, rodeado de pavões e cães ferozes, todos dominados por uma autoproclamada condessa e pelo seu companheiro, que não passava de um chantagista, alquimista, mágico e ladrão. O inferno, muitas vezes, está no meio de nós. Nietzsche começou então a perder o controlo do seu rosto: fazia caretas, chorava incontroladamente, sorria. Era capaz de estar na via pública, de pé, a  sorrir durante meia hora. Durante quatro dias, viu-se incapacitado de dar ao seu rosto uma expressão séria, concluindo daí que alguém que atinge um tal estado deve estar pronto para se tornar o salvador do mundo. Começou então a sofrer por causa das suas botas rotas, mas deixou de se preocupar com isso porque se apercebeu que estava condenado a divertir a próxima eternidade com más piadas. Na manhã de 3 de janeiro de 1889, ao sair à rua, observou um cocheiro a bater impiedosamente no seu cavalo. Nietzsche foi-se abaixo. Dominado pela compaixão, e a soluçar devido ao espetáculo, abraçou-se protetoramente ao pescoço do cavalo e desfaleceu. O filósofo do talvez nunca mais recuperou a razão.

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