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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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24
Dez20

Poema Infinito (540): A luz fria do inverno

João Madureira

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Antigamente, os campos eram o coração desta terra. Agora são apenas campos. Logo pela manhã, o sol pulverizava as árvores de amarelo. Havia por aqui correntes de crianças a caminho da escola e das terras. Comia-se junto à lareira, a falar e a olhar para as brasas que se iam apagando. No inverno fechava-se a porta para não entrar o frio. No verão, a porta ficava aberta para que as brisas pudessem entrar. Lá fora ouvia-se o zumbido rítmico dos insetos noturnos. Adorava fugir pelos campos e explorar as redondezas. Fixava-me nos pessegueiros repletos de frutos dourados, nos campos de centeio ondulando ao vento do estio. O verão costumava ser duro. Atravessei muitas vezes a ponte de pedra, imaginando que o espectro azul que via era uma dançarina. Agora essa ponte está repleta das memórias da mãe, do pai e dos avós. E também dos tios e dos primos. As colinas continuam verdejantes, mas os caminhos dão todos para o sul. A verdade é que também nos podemos afogar em memórias. E sentir então agonia e confusão. A morte do pai abalou definitivamente a minha perceção de uma ordem cósmica. Expôs os limites do caos e a lógica do Big Bang e do Big Crunch. As nuvens, nas tempestades, ficam penduradas nos nossos olhares como se tivessem medo dos relâmpagos. Sinto paz na luz azul. Há algumas pessoas que guardam as histórias de amor dentro de uma gaveta. Outras preferem metê-las dentro de envelopes e enviá-las por correio. Há ainda os que preferem acomodá-las em garrafas e mandá-las ao mar. As vidraças difundem uma luminosidade tranquila e suave que faz tremeluzir os teus olhos. Avanço a custo pelo meio dos campos abertos onde a noite costuma cair rapidamente. As sombras começam a devorar os caminhos. À minha memória chegam as mãos grossas e cheias de nós, fartas de empunhar os arados e as sacholas, pegando em cebolas cortadas, no pão, na carne e na caneca do vinho. E o sol a penetrar pela porta enquanto a mãe limpava o forno da aldeia. A luz fria de inverno costumava ser oblíqua. Lembro-me de acordar entre as rochas no preciso instante em que a madrugada nascia de forma resplandecente no cume do monte . A ansiedade transporta perigo. E também os tormentos da lamentação, da alegria, da verdade e da mentira. Com o calor dos restolhos queimados, o monte enrugou, as fontes ficaram turvas e a avó não conseguiu terminar o seu rosário. A chuva cai no bosque em silêncio. O olmo esvaziou-se de ideias, antes de falecer. E os silvados encobrem os muros. Os ramos das árvores agora emitem ecos. Os bois seguem o ritmo antigo dos sinos. Os velhos preparam-se para passar o rio da morte a vau, embriagados de calmantes, laxantes e minúsculas partículas deixadas pela energia negra das estrelas. São íntimos dos deuses, do aprumo dos templos, da incauta queda das palavras e do lume que elas provocam. A terra foi-lhes dura. Cedo se aperceberam do rigor do fogo. Viviam aflitos pelo pão, copiando os desejos e os filhos, comendo piedade e pontas de chama. Depois iam dar de beber aos cavalos e à sua sombra. Agora vivem de memórias, para que a queda seja mais suave. Os beijos são vagas impressões de violência. O sino soa. O vento abate a erva alta do lameiro. Os bois ruminam o tempo. O entardecer une-nos a todos. O ponto de chegada é uma estrela negra. Não são os atentados terroristas, nem os tsunamis nem as tragédias abruptas aquilo que os abate. Não. A morte definitiva vem-lhes de dentro como uma radiação atómica.

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