Poema Infinito (550): A prova

As casas eram velhas e simpáticas. E as ruas verdes e agradáveis, com a folhagem das árvores a entrelaçar-se no alto. E o bater das folhas por causa das brisas que passavam. Atravessava-se a ponte e em baixo o rio serpenteava, na sua pequena corrente, contorcendo-se suavemente por entre as rochas arredondadas e macias. Por vezes ouviam-se os pequenos sons das coisas a crescer. Agora vê-se uma pequena mansão apodrecida, com as suas venezianas partidas, as colunatas sem tinta e os muros negro-acinzentados a desmoronarem-se. A praça principal está deserta. Apenas alguns campos estão cultivados. Os casebres do velho bairro operário estão abandonados, expondo a madeira seca, os tijolos rachados, os ratos e as aranhas sobre os sobrados esventrados. Tudo murcha com o estio. Os gatos dormem ao sol. E os velhos dentro dos quartos ressonam atrapalhados com medo de não acordarem. Fui até à orla da floresta para ouvir o barulho das árvores. E depois o seu silêncio. Mais tarde sentei-me na cadeira que era do pai, junto à porta, e pus-me a ouvir a chuva. Senti atrás de mim a presença da minha mãe, a sorrir, descansando as mãos nos meus ombros. A mãe contava-me pequenas narrativas sobre as pessoas que tinha conhecido. Foi com ela que aprendi a metamorfose das histórias. Depois as alegrias começaram a transformar-se em desastres, limitados pelo canto dos rouxinóis e das cotovias. Diziam que para voar, bastava distender as asas. Eu acreditei. Nunca sabemos onde os inimigos se refugiam. Há sempre o caminha da ida. Mas nem sempre damos com o caminho de volta. Essa é a inquietação mais difícil de definir. Fugir não é fácil, difícil mesmo é saber para onde. Dentro das grandes mãos do pai, não cabia a realidade. Costumava rasgar a decisão anteriormente tomada com a gravidade dos seus gestos. Acreditei que dispunha do vento, do sol e que arranjava as asas dos pássaros feridos e que conseguia pintar as tardes de azul. Aprendi então que é difícil caminhar no meio da multidão. O que nos salvou de morrer afogados foram os imprevistos com que aprendemos a funcionar. Depois os dias foram trespassados pela utilidade. E nas varandas começaram a misturar-se as roupas velhas e as gaiolas e os frutos e as flores cheias de cor e de outras bonitas inutilidades. E os homens tropeçaram noutros homens e nas pedras da eira e nos regos das terras e nas suas próprias origens. As formigas ficaram ofuscadas com a comida abandonada, com os animais mortos, com os desertos dentro dos homens incertos e com as irregularidades do soalho. Fui uma criança completamente imersa na incerteza da infância. Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez. Mesmo os amores. E até os enganos. E as obrigações. O tempo tinha o esplendor da inexistência. Podia brincar sozinho com a tarde, pisar a neve com os pés, andar sobre a terra com as sandálias de Moisés, como nos ensinava a catequista. E o mar era Deus que abria os braços e nos engolia. Compreendo agora a velha tentação de espreitar as cansadas estações das ambulâncias e as passagens de nível que pareciam a prova oral da desistência. Sentia falta de ar e o devido apoio para o meu olhar inocente. Os gritos da mãe atingiam a velocidade da loucura. Lá fora iniciavam-se metodicamente as manhãs e tudo ficava um pouco da cor do vento.

