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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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28
Abr21

Poema Infinito (559): A incoerência do tempo

João Madureira

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Onde me prendo, lanço raízes. O tempo tornou-se incoerente. Perdeu a sua continuidade geográfica. É setembro. As tardes começaram a encurtar, as noites são mais fracas e as folhas voam por cima de nós, como pássaros. A maioria deles já se foi embora. Conheci um bêbado que gostava de passear e dançar em cima do arco-íris. Com a mudança de luz, o arco-íris desaparecia e ele punha-se a chorar. O tempo deixou de passar. Sopra uma brisa amena. Os significados perderam o seu movimento natural. Agora coleciono vazios. O silêncio das folhas é mais pesado do que o seu voo. Atinge rapidamente o chão. Por isso não percebo os vendavais, nem a inaudita atenção das florestas. Depressa chegou dezembro. A neve cai suave. Os flocos têm a espessura de pétalas. Faz muito frio na adega. É difícil encontrar a paz de espírito neste mundo que se desmorona. Viajamos dentro dos sonhos como se fossem pesadelos. Alguém sopra a vida que se apaga como uma vela. Estou sentado à mesa. Cada pequeno utensílio, cada talher, é um símbolo. Uma saudade. A avó dizia que não existe nenhuma erva do esquecimento. O tempo tornou-se tão fluido como o ar e a luz. O Deus das coisas mortas é tão confidencial que até dói. O universo é feito de escamas que atravessam os teus cabelos e refletem os raios de sol. É-me dificílimo dividir a vida entre o mar e a terra, entre os sexos, entre os choros, entre a verdade e a relatividade, entre as esquinas e as portas, entre os enganos e os esquecimentos. As portas matam a direção da luz. E os regressos tardios. Tento aprender de novo o saber adormecer e o recordar do crescimento da pequena cerejeira. Mas continuo a tremer sempre que penso na possibilidade da tua ausência. Ninguém consegue beber a beleza breve das gotas de chuva. Nem tocar a raiz das memórias. Escrevo como se as memórias escorressem sobre um laço. A felicidade está carregada de sangue e da nossa existência mamífera. Por vezes, sentimos uma espécie de febre perfeita. O mundo parece perder a cor. A pandemia tornou o mundo numa espécie de jardim botânico. O crepúsculo desliza bem para lá de nós. Os nossos esforços transformaram os desejos em fantasmas. Tudo agora se desenvolve sob o mito da prudência. Falamos cautelosamente do trabalho, das relações, da saúde, do desejo, da falta de energia, do nervosismo. Tudo nos apanhou de surpresa. Tudo se espalhou pelo chão, como as folhas mortas das árvores no outono. É outono em todo o mundo. Tudo está mais limpo e arrumado. Mas não é possível arranjar o tempo. O cheiro da desilusão atravessa o ar. Trazemos no bolso o livro das orações. As notícias parecem truques de um bando de prestidigitadores amargurados. Flutuamos no meio do medo. Olhamos para o semáforo verde com demasiada expectativa. As ervas crescem com mais vigor, inundando os passeios. Derramam-se o sangue e as palavras. Já ninguém lembra as velhas canções. Alimentamos o amor com rebentos de esperança. Tanta esperança para tão pouco. O desespero cresce demasiado depressa em todas as direções. E o espanto, também. 0 céu parece uma caixa de estrelas. Há longos rastos de escuridão. Guardamos a memória para depois. Vou subir as escadas devagar. A mãe chora vagarosamente. Tudo é silêncio. Até os cães deixaram de ladrar. O tempo começou a fugir-nos. “Para onde estás a olhar?”, pergunta a mãe. “Não sei”, respondo.

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