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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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28
Jul21

Poema Infinito (572): O olhar triste dos cavalos

João Madureira

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Entramos no longo túnel do inverno e as noites tornaram-se obsessivamente longas. Os degraus multiplicam-se. Multiplicam-se e alongam-se. Estou dentro de um quadro de Matisse. Volto de França a falar de Erasmo, por isso não vou precisar de comprar fluoxetina na farmácia. Começam então a explodir as folhas dos livros e depois as das árvores. Alguns principiam a morrer de precaução. A febre desce sobre mim como se fosse outono. Os pássaros ficam de repente mais lentos. Hoje tudo parece converter-se em chuva. A tranquilidade da água fica rápida. Respiro o frio e resvalo na sua tranquilidade. Lembro-me agora do tempo das raparigas suaves, do sol solitário das tardes de dezembro, das fotografias com o rio em agosto e das nuvens que se pareciam com mulheres iluminadas. Deus passeava, já cansado, pela beira do rio, duvidando que o pudesse atravessar caminhando pela superfície da água. Os sonhos das crianças eram feitos de férias e de pássaros que se agasalhavam com as próprias asas. Uma alegria calma pintava os beijos da mãe. E o tempo tinha as suas próprias marés. A mãe conseguia conciliar os gestos com a madrugada e ninguém se feria. Descobri hoje o valor do vento no tempo de Ruy Belo: oitenta escudos, que foi quanto lhe custou o vidro grande da janela do seu quarto. Começou a crescer-me a barba, indiferente às palavras e aos amores domésticos. Maio é um mês florido. E isso dói. Dói-me muito. A mãe morreu por essa altura e o pai em junho. O rolo compressor das manhãs circulou de forma intensiva. Ainda quando era tudo possível. Depois a intimidade começou a ser decrescente e o espanto deixou de ser anónimo. A morte passa, mas o ar da manhã fica. Especialmente se for frio. A marca do princípio também se dilui entre os rastos. A geada dá sempre cabo das pétalas, especialmente das mais coloridas. Os potros regressaram de manhã aos sonhos. Talvez viessem tarde, mas trouxeram consigo a humidade, a intensidade da luz e os campos rasos de olhares. Os cavalos são animais esguios, nivelados pelos campos, despertados pelas ervas, alternando, a seu modo, entre a luz e a sombra. É difícil imaginar os seus olhos tristes. Inquieta-me a nitidez da luz absorvida pelas crianças, as flores solitárias de Shakespeare e o amor na sua quantidade mínima. Tantos sítios. Tantas vezes. Tantos precipícios. Tantas madrugadas. Porventura, as tempestades podem ser perigosas. Depois a luz começou a subir os degraus e a procurar os buracos pelo meio das tábuas do soalho exaustas. As casas começaram a adormecer e a mãe a enredar os dedos nos fios dos novelos de lã. As mulheres acordam então no meio das páginas dos livros e com os corações repletos de palavras. O princípio das coisas não tem explicação. Todos morremos vítimas do absurdo. E então podemos ser quase gestos esquecidos. A arte de voar não depende do tamanho das asas. A relha rasga os campos. As primeiras configurações apareceram-me a caminho da escola. Pareciam borboletas ou a nossa senhora com as asas emprestadas da sininho. Descrevo o vento pela longa configuração da loucura, pela inquietação do tempo, pelo ângulo singelo das tuas mãos. Tempo é inquietação. E também uma espécie de silêncio ambíguo. Deus levanta as vestes. O seu sexo parece um pássaro inútil.

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