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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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16
Set21

Poema Infinito (578): A dispersão

João Madureira

 

 

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Pressinto a árvore da velhice a aproximar-se. O sol tornou-se sonâmbulo. Nasci numa geografia de fronteira que cruzava todos os dias. Lembro-me de ter as mãos cheias da sua luz. Agora, até as aves procuram novos céus. Os nomes começam a ser nada. Por aqui, as estradas são sempre de desvios. Por cima passam tordos, tentilhões, cucos, estorninhos, chascos, andorinhas, pardais, corujas, falcões, águias, milhafres, abelharucos, rolas e toutinegras. O lugar da morte é definitivo. O convento parece uma máquina de almas acomodatícias, contrariando as crianças. A solidão é uma coisa kafkiana que inverte os gritos e confunde os sonhos com os pesadelos. A paz não resulta da guerra mas do pavor, da impassível frialdade das palavras, dos significados mais dúbios. O nevoeiro levantou revelando toda a escuridão. A história está toda amontoada sobre as ruínas do castelo. O céu é uma dispersão de estrelas longínquas. Por vezes deito-me por entre as pedras da torre destruída para ver as aves lá em cima, a percorrerem as suas rotas caóticas. À medida que o sol caminha pela tarde, pequenos fragmentos de sombras deslizam pelas paredes do mosteiro. A roupa dos monges agita-se nos estendais. Oiço o murmúrio das suas orações e dos seus cânticos. Deus podia ser assim. Fitas de nuvens rasgam o azul do céu. Lá em baixo continua a correr o rio onde, quando era pequeno, brincava a tentar apanhar as sombras projetadas pelas videiras pendentes. Durante a madrugada, as aves desciam sobre a finíssima rede de neblina. Depois, a luz começava a passar por entre os ramos das árvores mais altas. Por aqui, antigamente, ouviam-se os gritos das crianças. Agora o silêncio pesa tanto como a morte. Só o céu continua a mostrar o seu azul radiante. Ainda me lembro do rosto oval do avô, dos seus olhos castanhos e dos vincos de dúvida na testa quando olhava para as suas terras. A chuva tamborila nos telhados como milhares de bicadas de pássaros nervosos. Este é um tempo diferente. As casas transformaram-se em retratos. A dor é ainda maior do que a solidão. O tempo neste lugar está cheio de decomposição. Lá em baixo, junto ao moinho, o moleiro costumava falar-me das estrelas. E de o tempo não ter princípio nem fim. Aprendi com ele a fase das vertigens, como se estivéssemos na beira de um precipício. Sente-se a hora meridiana do esquecimento, a luz inatingível é equidistante. Aprendi com os beduínos o cheiro e o toque do vento. Lembro-me da última vez que vi o avô. Curvou-se sobre mim e deu-me um beijo na testa. Com a última luz do dia, observei as pequenas rugas profundas que sulcavam o seu rosto. Vi cintilar os seus olhos inquietos, que apenas se fixavam nas coisas por breves instantes. No silêncio que se seguiu, apenas se escutou o vento, os balidos, os mugidos, os grunhidos, os latidos e os roncos dos animais. O futuro do avô estava escrito na água e no voo das aves. A montanha transformou-se num vulto adormecido. Uma espécie de saudade silenciosa vagueia pelos caminhos. A aldeia parece uma ilha no meio da noite. Tudo parece inútil: as cerejeiras, setembro, a inclinação das vinhas, as urzes, a solidão e mesmo o vento que vem do norte. Os vales costumam ficar serenos antes da destruição. Quando a madrugada chegar, já estarei sóbrio. Agora estou apenas cansado.

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