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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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25
Nov21

Poema Infinito (588): Solidão

João Madureira

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Houve uma época em que o sol atravessava as paredes e eu tomava café com leite sem o mexer para comer o açúcar que ficava por dissolver no fundo da xícara. Notava a minha palidez refletida na minha mãe. Esse sol ofuscante ainda chega das horas da infância. O pai e a mãe estão do lado da sombra. Não consigo deter estas imagens que começam a fugir através de um tempo semelhante ao espaço. Quero crer nessas imagens. Depois de o nevoeiro se dissipar, o olhar mergulha de novo na extensão cheia de fantasmas. Perseguem-me pesadelos imóveis. O sonho torna as coisas longínquas. As más recordações sacudo-as como o faz um cachorro quando sai da água. Sinto ao contemplar as coisas, sejam elas belas ou feias, o mesmo prazer que os outros experimentam quando as tocam. E a Teresinha lá vai trigueira, pelo meio dos raios de sol definidos pelas nuvens, pequena, mas luminosa. Eu agora estou na sombra. A existência atual está contaminada até às raízes. Os homens usurparam o lugar das árvores e dos bichos, poluíram a atmosfera e limitaram a maioria dos espaços livres. Estamos a ficar sem sítio, sem lugar, sem justificação. As feridas arrefecem e ficam encobertas pela neblina. A luz do mundo é agora coada pelo fumo dos carros e das fábricas. Parece que ninguém quer ser salvo. Ficam de mãos abertas a tentar apanhar o vazio. Saio da tarde e entro na solidão. As aves parecem véus. Alguém apaga de vez o distante pulsar da infância e salta para fora da janela, como se fosse um anjo. Um falso sossego começa a subir pelas paredes. Anoitecem as pontes. A luz fria dos vitrais começa a gelar, como se o universo tivesse iniciado agora a contração definitiva. A voz grave de Deus explica que o mundo não tem centro. Queimo as flores secas que estavam no vaso enquanto as traças ciciam. A terra apenas aguarda pelo fulgor da manhã e tudo voltará a ser o que era. Existirão horas luminosas e regressarão os sonhos e nascerão crianças e as sereias dançarão com os anjos mudos. Flutuam no ar éguas e príncipes e pêndulos. Ao demónio o que é do demónio. Os que nos irão trair começam a confessar-se e a esconder os pecados debaixo da língua. O desejo fica escuro. Tentamos aprender a misteriosa linguagem dos astros através das suas fulgurações cintilantes. O medo termina a sua obra. As mãos apagam os gestos e a leveza da cintilação das estrelas. O nosso olhar perde os sorrisos e a floresta de luzes. Houve horas luminosas dentro desta casa, onde cabia o amor e os suspiros e as palavras que ficavam por dizer. Não encontro nada no meio do sossego, nem o rasto das tuas perguntas, apenas sardinheiras secas e memórias. O mundo fez-se em silêncio. A solidão arrasta-se pela casa, armadilhada pelo sono e atormentada pelo silêncio, perseguindo a cauda como se fosse um cão. A solidão adaptou-se à geometria e à longitude das memórias, criando uma nova espécie de saudade. O vento espalha os versos como se fossem folhas de outono. Ouve-se o rumor da erva a crescer, tal é o silêncio. As sombras têm medo delas próprias. Estendo as mãos sobre a noite. O teu corpo treme. Para lá das paredes está a cinza, a líquida luminosidade da alva, as frágeis e eternas arestas do tempo. A nossa nudez está cheia de presságios, de gestos crepusculares. A vida enche-se e esvazia-se de mistérios, independentemente da nossa vontade. Este caminho é todo interior.

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