Poema Infinito (612): O alpendre
O alpendre está cheio de raízes e folhas. E o caminho cheio de tojos e urzes e giestas. Uma fraca luz de um cinza-azulado, que entra pelo janeluco, ilumina o espaço. O ar interior é insípido. Há água da chuva sobre terra e alguns guiços espalhados pelo chão. E também teias de aranha e bolor. Encostados à parede estão o velho arado, a grade, as molhelhas, o engaço, a sachola. Tudo tão morto que dá raiva. O rosto do Mafarrico é formado por linhas verticais. Os seus gestos são cortantes como facas da matança. As palmas das mãos estão viradas para baixo para não se ver aquilo que não têm: as linhas da morte. Avança depressa para sair do alcance do círculo de luz que entra pelo buraco redondo. Mas uma rapariga supera-o em poucos passos. Apenas antevejo instantâneos da sua imagem. A velocidade fá-la esvoaçar. Tudo se despedaça em silêncio. Agora sou eu que corro, mas em câmara lenta. Oiço um sibilar de partículas atómicas e de memes. Cada passo espera pelo outro. O tempo dilacera o espaço. Viajo através da penumbra até à luz do dia. Tudo parece conceptual ao nível do chão. Tudo vem até mim a um ritmo constante, ideias, fragmentos, pedaços de histórias e memórias. A natureza do tempo mudou. Os enigmas continuam enormes e silenciosos. O verde em redor é acutilante. Porquê tudo isto? Porquê? Regressar é como sofrer uma morte silenciosa. Os fantasmas são-me familiares. O seu rosto honesto, a sua confusão. A sua vulnerabilidade. Tão depressa como surgiu, algo que não consegui identificar, desapareceu. Tudo o que nos era familiar pode tornar-se desconhecido. O velho gato continua a chorar as ausências. E a olhar distraidamente para a porta da cozinha. Pequenas explosões de orações impressas espalham letras por todo o lado. Parece um desfile de carnaval. Depois do crepúsculo, o azul fica cada vez mais escuro. O gato deixou de chorar. Apesar de não haver guerra, existem muitos tipos diferentes de batalhas. Ando a lixar a tinta das portas da velha casa até à madeira. Sem objetivo. Concentro-me só em lixar. A cidade parece-me, por vezes, uma tranquila insónia de nevoeiro que toma conta dos arrabaldes até os deixar submersos. Tenho sempre uma sensação de urgência dentro da cabeça. O vento não tem destino. A paciência é lenta. E desinteressada. O que faço eu com ela? E com as surpresas previsíveis? Algumas mulheres parecem lençóis de mar. Agora adormeço entre vagares. Fixado nos seus olhos negros, na sua boca enorme. A escutar murmúrio de vozes. Ainda lembro o recorte dos movimentos da avó em frente da luz da candeia. A casa parece diferente, mais pequena, fechada, envolta na incerteza do futuro. A verdade é que os espaços costumam tornar-se um pouco sagrados quando ficam desertos durante algum tempo. Tem tudo a ver com a tranquilidade. A minha voz ecoa com aspereza no espaço vazio. As extensões do tempo são agora mais coloridas. Os olhos do velho gato continuam a brilhar no escuro. A minha ingenuidade infantil comove-me com uma espécie de tristeza perplexa. Os malmequeres continuam a crescer no meio das ervas no antigo recinto das crias. A chuva ainda acende o verde das árvores. A água cintila em cada flor silvestre. O velho gato agitou-se e deu um salto em direção à rua onde se engalfinhou com outros que por ali andavam à caça. Nem tudo está perdido.

