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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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23
Jun22

Poema Infinito (618): Redemoinho de luz

João Madureira

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Não há nada pior do que um novo medo. O medo da água de quem está habituado à terra firme. E lá vem a memória do estorvo, o triângulo das ruas, o retângulo das cores, os invernos desnivelados, a vida familiar. As ervas e os salgueiros. Os rapazes e as raparigas moncosas, em lágrimas. E as aves agitadas, as vacas balanceadas, as ovelhas peadas, a poeira suspensa, os barrancos inseguros, o fumo das casas a rebolar no ar. Os gritos densos. E os relinchos inquietos e nervosos dos cavalos. E o bater metálico das ferraduras dos seus cascos no empedrado. Surgem sombras no chão à nossa frente, como tinta espalhada sobre a terra. Anjos maus voam por cima de nós. O rio parece que se desmorona nas rochas. O espaço continua a tremer. Algumas vacas suspiram, mexem-se, soerguem-se e voltam a deitar-se. O silêncio da tarde parece incomodá-las. O céu côncavo oprime-nos. A todos. A desgraça, como um cardo agarradiço, é sempre mais certa do que a alegria. Chegámos ao fim do mundo. Subimos as escadas. E connosco sobem a saudade e as memórias. Sente-se o cheiro a calor. Ali estão as imagens fixas da mó do moinho que sustentava o lume e os potes, o escano, o louceiro, a bilha da água, a velha arca, os sussurros enigmáticos, a tristeza da mãe a um canto, junto ao gato e à vassoura de codessos. Na rua continua a soprar um vento de pressentimentos. Há silêncios que são como pedras a cair num poço sem fundo. Os tartaranhões cavalgam o vento lá nas alturas, com as asas abertas. Um crepúsculo precoce lança um feitiço sobre a aldeia. Este tempo parece infinito, vazio, gotejando lentamente. A magia da bruma já não me toca. Confundo os salmos com as canções para beber. Muito lá à frente está o futuro. Os pássaros de inverno acasalam com os pássaros da tristeza. As coisas magníficas também morrem. E sem razão aparente. As geadas precoces provocam desenvolvimentos indesejáveis. Os sorrisos de véspera desapareceram num redemoinho de luz. Por vezes, abrimos os olhos e a luz entra dolorosamente. Algumas palavras criam raízes na nossa alma. As tempestades de verão abrem as janelas para deixarem passar a água da chuva que também se acumula no chão, encharcando os tapetes. O sono passou a ser inquieto. As cicatrizes, por vezes, provocam-nos comichão. O tempo dá lugar a círculos infinitos. Uma colher no pires do chá estremece e tilinta, contagiada pelo tremor de terra. A lâmpada baloiça e as sombras dos objetos mexem-se nas paredes. Tudo vibra. Andamos a tapar buracos com a terra dos que abrimos. Agora não é a terra que treme, sou eu. A situação está clara, mas esta clareza não clarifica nada. Tudo permanece igual. Tudo vacila. Tudo baloiça. Sobretudo as sombras. Todo este espanto parece infantil. Todas as ruas levam ao rio. Apesar do sol aquecer a corrente do rio e o vento por cima do seu leito, adivinha-se um vazio aflitivo. O abandono passeia pelas ruas e praças. A casa materna é sagrada. Por causa das dietas, até as palavras ficaram anoréticas. Dividem-se as palavras por causa do desespero. Todos respiramos com dificuldade este ar puro. Até a respiração está viciada. A subitaneidade do desespero apanhou-nos a todos de surpresa. A lógica das leis da vida deixou de atuar. Habituamo-nos ao silêncio. Não à sua beleza intemporal. Esta tranquilidade é ilusória. Que enganador é o pressentimento.

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