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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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28
Jul22

Poema Infinito (623): Nuvem de vapor

João Madureira

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Muitas vezes, depois de beber a sua caneca de vinho aquecido à beira do lume, o tio João punha-se a reproduzir o som de muitos instrumentos da Banda da Torre e enchia a cozinha de alegria. Imitava com muita mestria a flauta, o clarinete, a trompete, o saxofone e o trombone de varas. E também o ritmo sincopado da tarola e o batimento forte do tambor. Apenas o cão, que dormia na casota debaixo das escadas, se punha a ganir, demonstrando o seu desagrado. Isto acontecia quase sempre depois do semear das terras, do arranque das batatas, das cegadas, da recolha dos fenos. Quanta alegria pode estar no fundo de um jarro de vinho. E de uma tarefa concluída. Alguma coisa começava a ganhar espaço, dividindo ao meio a alegria e a tristeza. Era uma espécie de força frágil, ainda sem nitidez. Uma presença que se insinuava lentamente. A luz ora resplandecia, ora ficava translúcida. E começava a vibrar, refratando-se no ar. Depois a avó ia buscar a travesseira e o tio João deitava-se no escano. Antes de ele encontrar o sono, já o sono o tinha encontrado a ele. A avó beijava-o na testa. E ali ficava o tio João em descanso até o tilintar das sinetas das vacas o despertarem para novo dia de trabalho. Logo pela manhã, gostava de ir até à fonte lavar a cara na água fresca. Ao meio-dia, era certo e sabido que subiria a rua com o carro de bois a chiar do eixo. O cão ladraria contente. E a sua mãe começaria a coar as batatas do pote. Quando chegámos ao enterro do avô, entrámos na aldeia num túnel de luz aberto pelos faróis do táxi. Depois das filas das árvores, apareceram as ruínas. Parecia que tudo tinha sido fechado em segredo: as escadarias, as janelas, as portas, as horas. A noite tinha fechado tudo. Nós viajávamos em segredo. Ainda me lembro dos dias frios em que o avô se punha a falar e uma nuvem de vapor lhe saía dos lábios. O avô era incapaz de ocultar a alma. Quem tem pouco pode sentir muito. Mesmo quem come azedas pode ser doce. A tempestade brame lá fora. Sinto, antes de recordar, o perfume do feno cortado e das cerejeiras em flor. Mesmo a alegria pode ser triste. Dizem que até pode ser ao contrário. O contrário também pode ser alegre. Ouve-se um disparo acutilante a que se segue um silêncio profundo. Coitadas das aves, a voar a grande velocidade e a serem abatidas no seu medo instintivo. Desapareceu o pátio. O outeiro foi rasgado por uma autoestrada que vai daqui até nenhures. Os sardões parecem estúpidos, de tão assustados, cobertos de escamas, rabo longo e ágil. Abrem ainda mais a boca. Parece que lhes falta o ar. Agora já ninguém pergunta o caminho para o Senhor da Ajuda. Provavelmente transformou-se num dinossauro. No entanto, as alfaces da Ribeira trazem no seu coração as folhas tenras e frescas de acolherem a orvalhada das manhãs. A palavra saudade ainda tem o seu próprio modo saboroso. É sempre avisado aproveitar o bom tempo porque costuma durar pouco. Por detrás dos vidros sujos das janelas já ninguém nos olha. Pelas cercanias andaram os guerrilheiros fugidos da Guerra Civil Espanhola. A mãe e a avó deixavam-lhes, em sítios estratégicos, pão para matarem a fome. Não queriam que se transformassem em lobos maus. Por aqui já não nascem crianças. Nem os seus nomes. Apenas existe o exato sentido das palavras abandono, tristeza e saudade. O espaço habitado deu lugar à memória, mas até ela se vai extinguindo como uma vela em honra do São Caetano. Afinal, que sentido temos nós?

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