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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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23
Fev23

Poema Infinito (653): Anjas devagarosas

João Madureira

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A amargura também se come. Eu bem a misturo na salada com a alface, o tomate, as beldroegas, a cebola, a rúcula. E lá a engulo, disfarçada de alimento verde e fresco. Antigamente procurava o tempo por necessidade. Agora faço-o por pura curiosidade. O tempo de agora está cheio de silêncio. E de pó. Passo o pano ao de leve para dar brilho à saudade. Ela ali e eu aqui. Os dois a encarar a inutilidade da louça, da roupa da cama, das janelas quase desfeitas, dos armários vazios. Tudo a caminho do esquecimento. Vestígios de casas devagarosas, de fechaduras obstruídas, de réstias de luz amarela. As perguntas sem resposta encaixam umas nas outras. Estas perguntas não têm resposta. Nem a querem. As razões são diferentes, dependem de cada um. Já não é possível voltar atrás e dizer que os amava, bem mais do que eles poderiam pensar. E ali estão eles a sorrir para quem olha para a sua fotografia. Já não têm necessidade de amor. Morreram. E eu também um pouco. E um pouco mais ainda quando penso neles. Eu a esconder os sentimentos e a contrariedade. Agora já é tarde. Por incrível que pareça, os seus olhos sorriem mais do que as bocas. Ainda não suspeitavam do anúncio do fim de toda a esperança. E o galo na capoeira a enervar as galinhas. Agora encontramos espectros onde deixámos pessoas. Os canteiros destroçados. As fotografias encarquilhadas. O vento ainda existe e as folhas dos carvalhos estremecem e a luz do sol inclina-se para aquecer a relva. Eu a varrer a eira com o olhar, a mesma eira que elas varriam com a vassoura de giesta ou de codessos. No seu tempo, foram as mulheres mais bonitas da aldeia. Tal mãe, tal filha. Agora as palavras afogam-se no ar. Posso regressar ao local, mas já é impossível regressar às pessoas. A essas pessoas. Este vazio está cheio de inquietação. O mundo a acabar antes da janela, antes do vidro, encostado à luz que se espalha pelo chão como se fosse fogo sem calor. Os meus olhos já entenderam a maneira como Vermeer transportava a luz para as suas pinturas. Os espaços abertos parecem cada vez mais fechados. Como se fossem circulares. Como se fossem repetições. O interior é como uma daquelas aldeias que foram submergidas pelas águas das albufeiras e que aparecem depois como fantasmas em tempo de seca. Os de lá dizem que vão para o sul. E que gostam. Os de cá confessam que os seus caminhos, todos eles, por mais imperfeitos que sejam, os levam para norte. Gostam do frio. O que parece uma coisa inexplicável. Amam as geadas. A neve. O lume das lareiras. As chouriças. A pinga. O foguetório produzido pelas chamiças das urzes. A intimidade dos momentos. É preciso pensar melhor a solidão. As lágrimas atravessam o escuro, as paredes, os muros, os palheiros. E vão esconder-se no forno onde a memória delas as aproveita para temperar o pão lêvedo. O silêncio amplia as vozes sussurradas, como se juntas formassem uma oração sem princípio nem fim. Depois de perder o tempo, chegará a altura de perder a razão. Para resistirem ao desespero e à desilusão, elas enfeitavam-se com as lendas. Muitas vezes o sorriso congelava-se-lhes no rosto. Nas festas de família, elas comiam sempre com um braço no colo, para criar lugar para quem chegava de surpresa. Só agora percebo o valor simbólico da atitude. A verdade é que não voavam porque lhes pesavam as asas. Cresciam-lhes porque tinham medo de voar.

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