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Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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23
Mar23

Poema Infinito (657): O vento e o pecado

João Madureira

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Apesar de ser míope e de a sorte não lhe sorrir, Maria descobria trevos de quatro folhas a grande distância e descortinava a lua nova ainda antes de ela ser visível. O problema era quando o vento virava no fundo do caminho e ficava ou muito frio ou muito quente. Então fazia que desaparecia atrás dos seus óculos. Tinha de continuar a esquecer. Os seus sonhos pareciam negras fosforescências. Das que habitam o universo desde a sua criação. Depois tudo caiu, como o fogo de artifício depois de explodir. O vento agora não para, desmancha-lhe o penteado e os bons propósitos. O tempo apaga-lhe toda a maquilhagem. Continua a esquecer-se das coisas, das promessas, dos livros e, depois, de si própria. É fácil perder o amor quando o vento das desavenças sopra forte sobre a preguiça dos princípios. Só quem olha para ela com atenção percebe que os seus sorrisos são desesperados. O som da felicidade parece-lhe um perigo. O sexo, ela sabe, não passa de um complexo. Tanta educação para nada. O sexo pode ser inconsequente. Quando acorda, o céu parece frio e está cruzado por relâmpagos. O terreiro é branco por estar aberto ao sol. As cordas estão cheias de roupa que se agita alegremente. Tudo parece fora de lugar, as madressilvas, os muros e as abelhas que saem do cortiço. Tudo parece estar confundido de espanto. Tudo se agita e serena, aceleradamente. Homens enxotam dos beirais as revoadas dos pássaros que procuram ninhos. Há sempre mais vítimas do que justiçados. A solidão é a voz da eternidade. Maria sempre teve um olhar excessivamente claro. Mesmo quando sofria, não gritava nem chamava por ninguém. Por vezes era possuída por uma espécie de malícia momentânea. Que ia e vinha como um espasmo. O pecado era apenas um ímpeto. Ela nem sequer sentia Deus. Tinha-lhe medo. Era uma espécie de abjeção inconsciente. O mal é algo mais do que o desafio que os outros nos lançam. Tem hálito de geada. Maria tinha uma espécie de sensualidade teatral, provavelmente aprendida vendo cinema mudo nos cineclubes. Descobriu nos livros a maneira triste de estar contente. E vice-versa. E de estar sozinha no meio da multidão. E a surpreender-se com a semântica. E a ser indulgente. E inocente. E fluente. E resistente. E também insolente. E a ser mar e terra, simultaneamente. Algumas vezes queria ser pássaro. Outras achava as aves inúteis. E ficava com os olhos frios. Sabia de cor os dias passados, onde o tempo continuava a agonizar. Em dias marcados no calendário cantava para arredondar as horas mais bicudas. Carregava-se de gestos. Maria conseguia iluminar como o sol, mesmo sem querer. Irritavam-na as esperanças verticais das pessoas que lhe contavam histórias exemplares. Na ida, gostava de anotar os caminhos do regresso. Aprendeu com a sua avó a lavar os olhos nas quatro estações. E depois chorava de alegria. A avó deixava-a vestir-se com palavras curtas, para agradar aos rapazes. Do seu sexo não vinha mal ao mundo. Gostava de deitar-se debaixo dos choupos, sozinha ou acompanhada. Edificava as palavras do seu amor sílaba a sílaba. E ciciava-as ao ouvido dos amantes. Respondia com silêncio ao silêncio de Deus. Esta era a sua forma de rezar. Depois começou a ausentar-se dos seus gestos. A ausentar-se todos os dias mais um pouco. E voltou à infância para nunca mais de lá sair.

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