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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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30
Mar23

Poema Infinito (658): A fria alegria da neve

João Madureira

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A intranquilidade é um sentimento opressivo. O rio mantém-se inalterado, brumoso e indistinto. Os resistentes andam ainda à deriva na vida. A tranquilidade é uma noção ilusória. Dói-me a paciência para descer as escadas do cretinismo. Uma coisa é subi-las envolvido na ignorância da crucificação, outra, bem distinta, é descê-las depois de ser pregado, martirizado, embebedado com vinagre, e, se ainda fosse pouco, abandonado pelo próprio pai divino com a desculpa permanente da salvação de quem não necessita, nem merece, a salvação celeste. Pai que é Pai morre em vez do filho para salvar a honra e a progenitura. O filho não tem que se submeter aos evangelhos de um pai vingativo. Antes pelo contrário. Ainda me lembro do dia em que a Amarela, a vaca preferida do João Lorde, pariu um bezerro enviesado que acabou por morrer. Estava a chover. Sentou-se num banco de madeira, cá fora, e a chuva transformou-se em granizo. E ele permaneceu ali sentado. As pessoas a olharem para ele como se estivesse louco. Depois os seus filhos içaram-no entre braços e levaram-no para dentro da cozinha e pousaram-no no escano, junto da lareira. Maria Fonseca serviu-lhe uma sopa quente de pedaços de batata, macarrão, feijão, tudo preparado num pote onde se cozia um osso de presunto. Dentro da habitação, a sua sombra foi-se convertendo noutra sombra. A sombra de toda a tristeza. Tanto trabalho, tanta esperança, para nada. Nalgumas macieiras do quintal, veem-se ainda pendentes alguns frutos ressequidos, que fazem lembrar ornamentos natalícios da árvore sem folhas. E as memórias continuam sozinhas e imóveis. O João Lorde, de olhos doridos pelo apaziguamento, a observar as brincadeiras dos pombos. E os camponeses curvados e em sofrimento. E várias pessoas a passearem os seus pesadelos. E ele a olhar para o teto que devia representar o céu. Maria Fonseca tem tanto tempo nos olhos! A casa está adormecida. O caráter é o que interessa nas dificuldades. Não consigo conceber um texto sem pessoas. Mas não deixo de tentar. Casas sem pessoas ocupadas. Com narradores intermitentes. Casas com uma superfície feminina. Com raparigas rigorosamente sexuais. Felizes. E depois infelizes. Não acredito em neuroses heterossexuais. A feminilidade no interior da sexualidade. Vaginas e rosas. Espinhos. Adornos. Podas. A magnificência da indeterminabilidade. Não há sol dentro de casa. Não há luz. A nostalgia parece artificial. Sempre a fotografar o vazio. O Kama Sutra a tomar conta das Mil e Uma Noites. O imaginário. A estrutura cruel da linguagem a parecer inadequada. As borboletas a voarem diretas à luz. O buraco negro da sexualidade. O arrependimento. A encenação. A teatralidade. A aniquilação. No entanto, as mães continuam a rezar o seu terço de estrelas. E sorrisos. Todos temos um passado. Todos temos um princípio. Tudo caminha para o seu fim. Quando vejo o bordado, tenho de acreditar na bordadeira. O terraço cobre a ferida da deserção. Os delfos fazem a vigília. Respiramos devagar para não atrapalhar a desordem harmoniosa das lágrimas, a idade do trevo, os grãos de milho ao relento, a latitude dos verbos, a sintaxe do desdém, o crepúsculo dos adjetivos, a mágoa, os montes, o desespero. Dialetos e caos. A fria alegria da neve. As margens dos dialetos. As bocas suavizando a dor.

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