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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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30
Mai24

Poema Infinito (715): Três vezes...

João Madureira

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Mise em abîme. Um poema ilustração interminável. Onde estou? Onde estamos? A profundidade é perigosa. O que é um sonho? Pois. É. Não sei. Mas sei que pode ser bonito. E também pode ser o contrário. O seu contrário. Todos os slogans gritados são insignificantes. Provocam a ruína interior. Magníficos desenhos não fazem de uma história medíocre uma obra-prima. As pessoas mistério transformam os aspetos negativos em algo positivo. E esse mistério é, em si mesmo, outro mistério. A arte pela arte é uma imitação, uma mise em abîme. Uma imitação interminável. Sei? Não sei se sei. Pois. Isto é um sonho. Isto é um sonho? Isto é um sonho e o seu contrário. Detesto a política porque são sempre as mesmas palavras por uma ordem ou por outra. Uma imitação. Uma mise em abîme. Os olhares falhados reparam em tudo e para nada servem. Veem as pessoas a afastarem-se. A Alice a afastar-se da tribo das crianças. Das áreas rurais. A acreditar nos princípios pentecostais. No estilo de roupa. Nos pecados da Bíblia. Buracos do tempo. Buracos nos sítios. Buracos nas histórias. Apenas a poesia dos poetas fracassados pode ser divertida e perturbadora, pois apenas ela encerra a mais pura ironia melancólica. Os poetas costumam organizar festas de mendigos onde são os principais convidados. Poetas a transformarem-se em mendigos. Mendigos a transformarem-se em poetas. Poetas a exibirem o seu fracasso. Poetas despossuídos. Poetas esquisitos. Poetas incompreendidos. Tudo estranho. Poetas com excesso de angústia. A angústia a transformar-se em luz. Alegorias e símbolos. Desesperos luminosos. Versos luminosos. Palavras luminosas. Só a sua coragem é sombria. Poetas anacoretas. A desfazer narrativas. A desfazer relevâncias. E irrelevâncias. O sexo praticado pelos poetas tem muita raiva incontida. O erotismo a redimir o passado. A resgatar os mortos. A redimir e a nomear os vivos. Vivam as distopias. Quando nos aproximamos do fim tudo tem o sabor do apocalipse. A realidade como enigma. O Aleph a engolir Jorge Luis Borges e a bolsar Vargas Llosa. O Aleph a engolir Juan Rulfo e a regurgitar Gabriel Garcia Marques. A arte é inútil diante da morte e do tempo. Ai a poderosíssima inutilidade da poesia! Daí Hugo Pratt ter o desejo profundo de ser inútil. Faço poesia que não pretende narrar factos, mas transcendê-los. A escrita ou é total ou não vale a pena. O mundo da poesia é líquido. Por vezes a mão do poeta deita fogo às palavras que incendeiam os versos e estes propagam o lume até à combustão dos sentidos. Ninguém consegue apagar as suas mãos em chamas. Nem a chuva, nem a angústia desaparecem. É inverno e a Branca de Neve começou a derreter. A poesia tem a coragem dos fracassados. Por vezes sinto e vejo alguma beleza. Oiço os ecos, as repetições e os delicados ritmos sintáticos que dão eloquência a toda esta narrativa de versos longos e discursivos. Estes jogos de linguagem não são extravagâncias. São apenas subversões de natureza diferente. E eu no meio dos livros, desesperado. A tentar esticar almas. As saudades a voar como se fossem aves de arribação. Como é doloroso não poder tocar um instrumento e amar a música. Sim, Caetano Veloso, os livros são objetos transcendentes. São eles que nos fazem regressar ao Éden. Como se isso fosse possível, meu Deus. Como se isso fosse possível. Como se isso fosse possível. Não te esqueças Pedro, que três vezes me hás de negar antes do galo cantar.

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