Poema Infinito (791): Polifonias
Ela era um som, um murmúrio, um lindo sussurro. Conversava sempre em segredo. Tinha sempre necessidade de silêncio para se fazer ouvir. Falava quase sem voz, como se sofresse de agonia crónica. Cheia de vulnerabilidade, como se estivesse a ser escrita por um poeta. A sua força vinha-lhe do seu espaço de incerteza. A sua calma parecia violenta, nostálgica, íntima. Ela criava-se a si própria. Era o seu próprio percurso. A sua memória vinha-lhe do desejo. Inventava sonhos e era habitada por eles. Tinha sempre um tom de pânico antes do amor. Uma espécie de sofrimento alegre. Parecia uma revelação. Gostava de colher violetas no bosque, fazendo-se encontrada com a primavera. Pegava em todos os objetos como se fossem frágeis. Movia-se devagar como se estivesse dentro de água. Agia sempre como se tivesse um pouco de frio. Possuía uma dupla alma de mulher. Falava como se tivesse mel na boca. Amava como se tivesse coceira no corpo. Ela dizia-me que todos procuramos o amor como se tivesse dificuldade em acreditar nas suas próprias palavras. O seu amor era muito ambíguo. Vivia dentro do seu entorpecimento porque tinha dificuldade em acreditar. Costumava voar com as asas da sua anja da perplexidade. A sua estranheza era muito feminina, mas o seu silêncio era-o ainda mais. Gostava de cultivar silêncios como se eles fizessem parte da sua alimentação. Eu tentava trabalhá-los de forma literária. Tinha um corpo religioso, cheio de tabus e acentos circunflexos. Cheio de restrições. A sua socialização feminina funcionou muitas vezes como autossabotagem. O seu ato sexual estava cheio de polifonias. Dizia que o amor não precisa de ser perfeito. Era imprevisível, capaz de ser doce e violenta ao mesmo tempo, passando rapidamente do pudor ao entusiasmo. Possuía um poder de atração incrível. O seu amor era introspectivo. Com incertezas. Inesperado. Inconsciente. Todo o verdadeiro amor é inconsciente. Voltado para dentro. Amar é uma espécie de pânico. Amar devolve-nos a dignidade. O amor é ridículo porque não tem nada de ridículo, a não ser fazer-nos sentir ridículos. É como um quadro negro pintado por cima de cor-de-rosa. O amor é a construção feita em cima da destruição. Ela sentia um mal-estar existencial por cima da capa da normalidade. O idílico por cima dela. Ela por cima do idílico. O seu amor era incisivo, mas curto. Brilhava como gelo ao sol, derretendo e dando origem a novas formas, cheias de cores e rendilhados. Cheio de confusões. E confissões. Por vezes era crepe da China, outras burel barrosão. O amor tanto pode ser um bolo de casamento como um desperdício. O seu corpo era sagrado, não se deixava ver. Apenas permitia vislumbres, como as fotografias fragmentadas. Era uma espécie de arcanjo invertido. Ou convertido em humano. Evitava a aproximação excessiva para proteger os seus defeitos. O amor acontece quando perdemos a noção do tempo. Amar pode doer. E muito. E de muitas maneiras. Todo amor é ilusão. Todo o amor é. E não é. Há amores magistrais que nunca serão amor verdadeiro. Falta-lhes a essência. Há pequenos amores que são imensos. São arte. O amor verdadeiro tem voz própria. Ela tinha-a. O amor é um buraco negro imenso. Absorve tudo e tudo devora.

